zoom nas vísceras

O olhar sobe como um estranho balão para o infinito

João da Rocha

Apenas um homem inadequado

A TRAVESSIA VERMELHA DE Isaac Babel

“A obra de Babel desafia as classificações. Do meu ponto de vista, para simplificar, a justaposição de coisas compatíveis e coisas incompatíveis mantém a prosa de Babel em um estado de tensão constante e lhe dá o seu caráter original. Abordar Babel esperando ver em sua obra a literatura russa tradicional, pode levar a um desapontamento, ou a um sentimento de descoberta.”

Nathalie Bábel


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A literatura russa possui em seu cerne, enorme tradição e imprescindível contribuição para a humanidade. Alguns de seus admiráveis leques de escritores estão entre os grandes, influenciando consideravelmente a cultura, a língua, a história do seu país e inevitavelmente de outras regiões.

No entanto, a recíproca também é legítima. Muitos autores foram profundamente marcados pela história, por seu tempo, pelas feridas abertas de dentro para fora, de tradições, comportamentos e posturas inaceitáveis, doentias, cadavéricas ideologias e guerras travadas em nome da ignorância. Um desses jovens - soterrados pelos escombros de uma época - foi o grande escritor Isaac Babel.

Bábel nasceu em um ambiente absolutamente hostil. Nascer de família judaica no final do século XIX o remeteu ao antissemitismo czarista enraizado pelo governo. Incentivado pelo mesmo e propagado durante gerações.

A relação da Rússia com os judeus era tensa, violenta, preocupante mais do que em qualquer outro país na Europa. Neste período ficou conhecido o termo “Pogrom” em que se organizavam ataques massivos de grande escala a grupos de pessoas – neste contexto – judeus. Estudiosos apontam a polícia russa, os chamado “Okhrana” como organizadores de inúmeras atrocidades, ou talvez o que chamamos hoje de chacinas.

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Isaac Babel desde sempre viveu entre mundos antagônicos. De lado às raízes judias que transbordavam em sua história, do outro a Rússia que ele amava, mas não era um amor correspondido. De outros lados as lutas por um mundo melhor, comunista, na paixão mais sublime do termo. Comum a todos. Foi assim que abraçou a revolução de 1917.

Atuou como correspondente de guerra entre polacos e soviéticos e escreveu através destas experiências sua máxima obra prima, O Exército de Cavalaria (Konármya). Neste período Isaac conhece o grande escritor Maksim Górki, que acabaria se tornando seu amigo e mentor e publicaria seus primeiros contos nos jornais Liétopis e Nóvaia Jizni, ambos criados por Górki.

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Outra obra importante para entender o pensamento do escritor Judeu, foi a peça “Maria”. Neste trabalho, Babel faz perigosas denúncias ocultas, ironias ácidas e verossímeis sobre o regime. A truculência de seus soldados e sua indisfarçável ignorância contextual. O trabalho acabou sendo proibido pela NKVD - Comissariado do povo para assuntos internos, que visava proteger o estado soviético. O conto "The Bathroom Window" também ganhou a fúria do estado e foi acusado de ser obsceno. O conto "The Story of My Dovecot" foi dedicado ao Gorky e também é considerado um grande trabalho de Babel. Além de “Odessa Tales” com permutações biográficas que remonta sua juventude em Odesa, Ucrânia.

O entusiasmo de Isaac Babel pela revolução comunista durou pouco. Obrigado a seguir uma linha estritamente programada pela propaganda do estado. O escritor se desencanta pelos ideais e passa a ser perseguido pelo governo de Josef Stálin. Curiosamente, Babel mantinha intensas viagens fora da Rússia. Chegou a se empolgar com Paris e até a querer escrever em francês. Sua vida foi também marcada pela boêmia. O caos impetuoso do sexo, do amor, dos filhos, de alguns casamentos - apenas um formal - e pelo álcool e o profundo desejo de libertação rasgando suas entranhas.

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Yury Annenkov, grande cartunista russo da primeira metade do século XX falava com admiração de Babel. Este o enviava cartas apaixonadas pela escrita, não obstante, com o decorrer dos anos, sua paixão febril estava se apagando. Controlado pelo sistema totalitário, torna-se aos poucos, pessimista, frio em suas incertezas cinzentas.

A literatura de Isaac Babel é considera vigorosa. Porém, rígida, empedrada pelas experiências sangrentas dos campos de batalha e pela constatação de estar do lado ironicamente mais controverso do front. Seu estilo era direto. Suas vírgulas eram decapitadas e seus períodos eram brutais.

Sua arte brotou e se embruteceu em uma contrarrevolução enigmática, perigosa, não heróica e sim de sobrevivência, não de si mesmo e sim de sua própria razão artística. Uma referência também norteada por alguns estudiosos do autor recai na obra do francês Guy de Maupassant.

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Preso em meados de 1939. Issac - assim como muito de seus amigos, colegas e companheiros - foi torturado e obrigado a confessar seus supostos crimes. Envolto em pressões psicológicas e físicas, debilitado, entrega companheiros e cria histórias fictícias para servir de pano para os seus torturados, entretanto, volta a trás e desfaz todo o verborrágico vômito de cólera e salva amigos e colegas contemporâneos a si. Posto isto, foi condenado à morte. Apenas pede para que lhe deixem terminar sua obra. Apesar das datas controversas, algumas apontam seu fuzilamento - em Moscou - em janeiro de 1940.

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Sua obra e seu nome - entre os grandes escritores russos - voltaria ao patamar de eterno merecimento apenas em 1954. Porém, seu diário, seus manuscritos, entre eles, peças e roteiros de cinema, jamais foram encontrados. Sua obra foi apenas definitivamente recolocada na Rússia em meados do século XXI.

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O tempo tratou de restaurar o mito em torno deste grande escritor. Uma época sombria, um século de sensações irrenunciáveis, uma influência elogiosa para grandes escritores em todo o mundo. Uma obra, mesmo que pequena em que retrata os incontáveis vestígios das extremas relações humanas.

Isaac Babel construiu sua literatura pálida, sua atmosfera vive para além do seu tempo. Estando ele dentro, como um correspondente de nossas mais estranhas capacidades de nos violentar e destruir.


João da Rocha

Apenas um homem inadequado.
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