zoom nas vísceras

O olhar sobe como um estranho balão para o infinito

João da Rocha

Apenas um homem inadequado

O PRETO E BRANCO ÉTNICO NA FOTOGRAFIA de Martín Chambi

"Eu li que no Chile acredita-se que os índios não têm cultura, que eles são incivilizados, que eles são intelectualmente e artisticamente inferior quando comparado com os brancos e europeus. Mais eloqüente do que a minha opinião, no entanto, são testemunhos gráficos. A minha esperança é que as testemunhas imparciais e objetivas examinará esta evidência. Eu sinto que eu sou um representante da minha raça; meu povo falar através das minhas fotografias."

Martín Chambi Jimenez


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O contexto peruano no final do século XIX era de grave crise financeira e medonhos problemas sociais. O país havia perdido uma guerra que não era sua (a guerra do pacífico entre Bolívia e Chile), perdeu terras, cidades e se viu atolado em dívidas e pobreza. Martín Chambi nasceria poucos anos depois, às margens do Lago Titicaca – localizado na fronteira entre o Peru e a Bolívia. Mais precisamente no humilde povoado de Coaza.

As raízes históricas do Peru levou seu pai a trabalhar com mineração para multinacionais inglesas e se mudar para a província de Carabaya. Há de ressaltar que o país – neste período – foi um importante polo exportador de minério para antigos imperialistas como a Espanha – país este que havia reconhecido a sua independência – ou uma delas.

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Chambi tinha o destino gêmeo do pai a seguir. Não obstante, este tinha outros planos para o filho. Neste entremeio, Martin começa os primeiros passos na fotografia com a ajuda dos imigrantes ingleses e posteriormente Chambi conhece o fotógrafo Max T. Vargas - que era dono de um dos mais importantes estúdios de fotografia de Arequipa - Vargas se tornou seu mestre e lhe deu sua primeira máquina fotográfica.

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As raízes indígenas de Martin Chambi remontam aos povos Quíchuas. São assim chamados pela tradicional e milenar língua Quíchua e estão distribuídos pelos Andes entre diversos países. O idioma era falado pelo império Inca e por outros povos e possui muitas variações. Hoje é uma das línguas oficiais do Peru.

Estas profundezas de seu povo e as condições sociais da nação e seu ímpar olhar exótico foram construindo em Martin sua essência poética, dando luz ao até então desconhecido Andes e redescobrindo uma América do Sul e levando esta aos confins de uma Europa perplexa.

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O trabalho deste magnífico fotógrafo peruano tem nuances tanto artísticas como também comerciais. Estas são apontadas por alguns críticos como uma postura – uma fase – controversa de Chambi. A verdade é que em alguns momentos de fato a arte deste gênio foi deixada de lado – no sentido propriamente pessoal – e foi tramada para o diálogo com o capital, no entanto, esta é apenas uma das facetas de um mestre.

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Chambi Fundou - em 1917 - seu próprio estúdio e posteriormente a Escola de Fotografia Cusquenha. Uma América intrigante estava sendo desvelada. Martin também é apontado como um dos primeiros a fotografar a lendária e singular Machu Pichu – descoberta apenas em 1911. Além da visão etnográfica, Chambi buscava um diálogo antropológico que recriasse de dentro para fora a vida dos povos antigos. Cuzco nunca foi tão bem observada em suas inclinações e desdobramentos.

Martin buscou retratar as raízes dos povos Quéchuas, habitantes atemporais dos Andes, povos Aymarás e ancestrais indigenistas. Todos fazem parte de uma gama cultural transcendente capaz de colocar Chambi entre os mais importantes artistas de todos os tempos e sem qualquer dúvida, um dos maiores fotógrafos da América do Sul e do século XX.

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Chambi ganhou algumas importantes exposições ainda em vida. Como a amostra da Escola de Fotografia de Cuzco. A fotografia avant-garde do mestre ganhou eventos apaixonados no lendário MOMA em Nova York e cruzou o atlântico rumo à Espanha e outros países europeus.

Vários estudos também foram trabalhados na obra do peruano. Sua relevância extrapola os ocultos limites da arte e encontra campos abertos sociológicos, arqueológicos. Passaram a serem documentos do seu tempo e sua infindável e enigmática técnica sob a luz de uma inspiração indígena universal.

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Poucos anos depois de seu falecimento – em 1973 – seus filhos reuniram um importante acervo multicultural baseado no trabalho do mestre Chambi. Exposição que rodou vários países e hoje fazem parte da memória cultural e do patrimônio histórico do povo peruano. Outro ponto importante é que até a sua morte, o trabalho magistral deste retratista estava quase esquecido, sendo redescoberto com surpresa por muitos historiadores e ganhando um relevante Instituto através do seu neto.

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O preto e branco étnico escorre pelas luzes e escreve - nos ombros de uma raça - poéticas manifestações, por vezes aglomeradas, por vezes na solidão ancestral de crianças, senhores e nativos esculpidos por uma lente iluminada de poentes inigualáveis.

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Martin Chambi foi o mais universal dos fotógrafos indígenas. Revelou para o mundo algo que o próprio não conhecia: a beleza cravada nas montanhas – quase – oníricas, artesanalmente criadas pelo tempo e um povo, sua identidade – a identidade de todos os latinos, colonos e a miscigenação mágica do encontro da arte com a vida.


João da Rocha

Apenas um homem inadequado.
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