zoom nas vísceras

O olhar sobe como um estranho balão para o infinito

João da Rocha

Apenas um homem inadequado

HIROSHI Manabe | O RETRO-FUTURISMO ESPERANÇOSO

O século XX foi intenso e destrutivo para o povo japonês. O país já havia participado da primeira guerra mundial, lutando contra alemães, entretanto, com um sério objetivo militarista e futuramente expansionista. Antes do início da segunda guerra o país inicia mais um conflito com a China - o segundo - a guerra sino-japonesa já havia sido travada de 1894 até 1895. A invasão japonesa ao território chinês em 1937 – chamado de incidente na Ponte Marco Polo - foi decisivo para o início da segunda grande guerra. Neste contexto conflituoso nasce o ilustrador Hiroshi Manabe - mais precisamente em 1932 - para se tornar um dos maiores artistas japoneses do pós-guerra.


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O futuro sentido e vislumbrado por Manabe é bem diferente do que viveu sua família certamente. Ele nasceu na região de Shikoku, uma das quatro ilhas do arquipélago japonês. A cidade de Niihama também é famosa pela Peregrinação aos 88 Templos. Os primeiros passos de Hiroschi foram travados na Tama Art University. Paralelo a este momento, a ficção japonesa ainda engatinhava sob a batuta de mestres como Shin-iti Hoshi, este que seria publicado pela lendária Kodansha. Hiroshi Manabe também ilustrou grandes trabalhos de Hishi, assim como de Yasutaka Tsutsui, outro grande escritor de ficção científica japonesa.

Manabe foi indubitavelmente influenciado pelo ambiente militarista e decadente de seu país no pós-guerra, não obstante, sua arte vai de encontro às cinzentas paisagens vistas entre os escombros da derrota e da bomba. Suas cores extremecem o olhar brotando reluzentes poesias futuríscas. Uma arte resiliente, que transborda líquidos particulares sobre a socidade da época e não à toa, Manabe é um dos mais celebrados artistas do século XX e um verdadeiro patrimônio histórico nativo das ilhas orientais.

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Em 1960, ganhou merecidamente o prêmio Kodansha Illustration Award por sua obra e fundou também uma associação de ilustradores juntamente com outros emimentes artistas. Paralelo a isto, Hiroshi - influenciado pelos experimentos com videoarte e animação - ajudou a segmentar esta arte no japão na década de sessenta. Manabe produziu uma sequencia notável de curtas: Marine Snow (1960), Cinepoem No. 1 (1962), March e Jikan em 1963, Sensuikan Cassiopeia (1964), Space Bird (1965), Chase (1966). Trabalhos estes que estão entre os mais importantes da história da animação e da filmografia japonesa no século.

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Seu livro ‘Original’ lançado em Tokyo pela Kodansha, 1975. Inclui importantes trabalhos: Ilustrações psicodélicas, surrealistas, um futurismo alegórico e não menos lírico, com flores que se misturam ao modernismo, não obstante, pensando em harmonia. As relações humanas em profunda espiritualidade - dialogando com um mundo lúdico - onde a tecnologia trava um importante respeito mútuo ao humano.

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Hiroshi Manabe faz parte de um relevante grupo de ilustradores independentes que ajudaram o Japão a ser uma referência no mundo nesta arte e também a ter um papel relevante na criação de animes. Este, ao lado de artistas iluminados como Osamu Tezuka. Nomes como Makoto Wada, Yoji Kuri, Tatsuo Shimamura também solidificaram o estilo do país na vanguarda.

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A beleza retro-futurista de Hiroshi Manabe se consolida no encontro entre um passado tenebroso mas que foi sublimemente superado pelo colorido mágico e pelo avanço científico - que não visava o automatismo - e sim abraçava a demasia das realizações humanas e suas significâncias humanísticas.

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O traço, as linhas, as pigmentações colossais de combinações flutuantes, são considerados um estilo único, desenvolvido apenas por ele em todo o vislumbre de um mestre.

O futuro gerado por este magnífico artista não encontrava em sua época um sentido, uma realidade pragmática, no entanto, cabe à arte encontrar os caminhos oníricos. Um visionarismo não acidental e sim impregnado de virtudes e que ganhou mais contornos na obra de Hiroshi Manabe.


João da Rocha

Apenas um homem inadequado.
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