zoom nas vísceras

O olhar sobe como um estranho balão para o infinito

João da Rocha

Apenas um homem inadequado

O OBLÍQUO ENIGMA

Havia qualquer coisa de violenta em Ierdna. Na soturna e titubeante noite - após goles de vinho onde também degustou os próprios sentidos na companhia de amigos - tudo que ele queria era o voo pálido pelos arredores de Júpiter. Um embaçamento escuro de incertezas nadava em seu suor obscuro e refletia nas andanças da sombra. Os pensamentos remontavam antigas peças e esculpiam - no asfalto -  às sensações de verdade. Esta ida para casa revelava um oceano por baixo de seus pés, estes, calejados pelo chumbo das interrogações...


Imagen Thumbnail para 0011414998.jpg

Na companhia de imperceptíveis músicas vindas da câmera escura destruída do mundo posterior – alguns chamam de passado - Ierdna pegava carona nas dissonantes ondulações, nas partituras que se espatifavam rompendo às barreiras do som em outra dimensão perto dos muros dos nobres vizinhos. Todavia, ele logo retornava em seu rumo, restabelecendo contato com a múltipla aparência dos jovens modernos. Perdia-se e achava-se, era um ciclo, um fluxo imaterial desgovernado. Quando procurou ajuda, o recomendaram que viajasse em embarcações lunáticas e atracasse em ilhas sem aglomerações, deitasse o rosto sobre as areias da noite e ouvisse a pulsação do atlântico.

Londres1978-2.jpg

Obviamente Ierdna não seguiu tal recomendação. O jovem cada vez mais recluso, resolveu escrever um livro que contasse suas memórias da infância. Que infância?

Ierdna era apenas um menino esquálido, daqueles moribundos - que ao ter contato com o chão - era facilmente derrubado pelos exércitos doentios. Certa vez, brincando futebol, levou um grande arremesso no estômago. Sentiu a esfera esmagando seus órgãos, sentiu o frio nas pernas - como um gole de veneno apocalíptico - suas vísceras jamais foram as mesmas.

st1997.jpg

A previsibilidade é uma mágica que raramente falha. Ierdna chegaria em casa e apenas se poria a pensar. Era tudo que fazia durante décadas, pensava. O mundo tende a condenar por isto. E foi assim que terminou seus dias, a pensar. Ierdna não acreditava na ação, no passo, esqueceu como era abrir a janela, deslembrou as fechaduras da porta, borrou os semblantes quentes do sol e raspou as sobrancelhas invioláveis das nebulosas. Ierdna trancou-se. Jogou a chave nos arredores de Saturno - para girar - e em algum lugar de si mesmo. O mundo? este, o esqueceu e continuou lá fora.

Perguntado - do outro lado da porta lacrada - se viveria tudo novamente, Ierdna não respondeu, apenas roçou um bilhete por debaixo do ádito monolítico. Nele contava sua história. O mundo? ignorou. Viver é muito mais que pensar. Brandem os otimistas. A vida é o espaço de Ierdna. Diziam baixinho os pessimistas.

Montmajour1993.jpg

O mundo fez um novo chamado. Ierdna conseguiria um emprego, um apartamento no centro da capital, carros futurísticos, casas nos litorais, moças que poderia brincar carnalmente, Ierdna finalmente seria apresentado para o mundo real dentro da realidade ordinária dos outros. Ele aceitou.

Inglaterra1980.jpg

Para alguns era um recomeço. A vida? é de quem vive. O não viver? não existe. É um blefe, um jogo de palavras, um verso irremissível. Ierdna viveu o inevitável limiar. Um alvoroço de dedilhados nos braços do mundo. O pensamento eternamente nunca acontecido. O tudo e o nada e o contrário êmulo. Como todos que vieram e já foram. Na absoluta transcursão taciturna.

Ierdna, um indisfarçável errante que passa e reflete em nós uma mórbida irmandade.

---

Fotografias | Humberto Luis Rivas (ARG)


João da Rocha

Apenas um homem inadequado.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //João da Rocha