zoom nas vísceras

O olhar sobe como um estranho balão para o infinito

João da Rocha

Apenas um homem inadequado

O REALISMO FANTASMAGÓRICO DE Amos Tutuola

Entre lendas e tradições africanas, uma das mais notáveis e emblemáticas apontam para a cultura Yorubá. Esses povos se delimitaram pela Nigéria, também por países como Guiné e Benin. Suas origens foram profundamente estudadas, não obstante, encontra ramificações distintas: Estudos apontam o Egito como berço deste povo e mais ainda, como parte da origem dos primeiros homens. Sob a batuta do guerreiro Oduduwa, na cidade de Ilê-Ifé (Ilé-Ifè), ou melhor, o berço do mundo. Neste contexto histórico e de profícua cultura, Amos Tutuola surge como um dos maiores escritores africanos do século XX.


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Amos Tutuola cresceu imerso na cultura, tradições e no religiosíssimo marcante de sua região, mais precisamente na cidade de Abeokuta, em Ogun, em 1920. Cheia de líderes religiosos, espirituais, ritualísticos. No som de mantras e orações enigmáticas.

Nos primórdios de suas manifestações artísticas, Tutuola começa a contar casos e estórias em rodas de conversa com amigos. Espécies de contos orais, teatros sob às orientações do jogo fantástico ou do absurdo. Seu primeiro grande conto a ter alcance na região foi The Palm-Wine Drinkard.

Primeira grande abalo nas intensas relações de Amos Tutuola se deram com o inicio da segunda guerra e a morte repentina do pai em 1939. Interrompendo os estudos neste ano, entra como ferreiro para a RAF (Royal Air Force), ficando até o fim dos conflitos. Há de ressaltar que a Nigéria foi colônia britânica até 1960, quando em fim conseguiu sua independência. Na grande cidade de Lagos – capital nigeriana até 1991 – ele atuou como mensageiro e poderia assim encaminhar seus textos desfrutando de certa notoriedade como pretenso escritor.

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Estudos apontam que o primeiro trabalho enviado a uma editora por Tutuola foi “The Wild Hunter in the Bush of Ghosts”, continha imagens de espíritos e textos febris de puro devaneio fantástico. Recusado por outras pequenas editoras locais, finalmente o trabalho “The Palm-Wine Drinkard” encontra seu espaço na lendária editora inglesa Faber and Faber – conhecida por suas publicações de gente do calibre de T.S. Eliot. Tutuola havia mandado uma carta a Instituição com um manuscrito e recebeu a resposta positivamente alguns meses depois. Finalmente 1952, Amos Tutuola lançaria seu primeiro clássico.

A reação ao primeiro contato com a não linearidade e o ambiente cheio de cores vertiginosas de Tutuola causou fascinação entre os leitores americanos e ingleses, no entanto, hostilidade entre intelectuais nigerianos. Estes apontavam certa falta de padronização com o inglês corrente, havia muita supertição e lendas que remetiam a inverossimilhança. Amos trabalhava com mais de uma língua, inventava palavras, mergulhava seus períodos em bacias tradicionais da cultura Yorubá e nas atmosferas lúdicas em que conviveu na infância. Um universo intrigante, assustador para alguns, perturbadoramente sedutor para muitos.

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Em 1954, apenas dois anos depois, o jovem escritor lança finalmente “My Life in the Bush of Ghosts”. Ainda viriam “Simbi And The Satyr of The Dark Jungle” e “The Brave African Huntress” todos na década de cinquenta. O nome de Tutuola crescia progressivamente fora da África ao mesmo tempo em que causava controvérsia por seu “novo inglês” como foi celebrado por alguns escritores britânicos, entretanto, era depreciado por mostrar uma linguagem errática demais, densa demais em abstrações e folclore.

A grande influência apontada por Tutuola para sua escrita mágica está na obra do mestre Daniel Olorunfemi Fagunwa. Este magnífico novelista é apontado como o pioneiro na construção de um surrealismo propriamente africano. Seu clássico “Ogboju Ode Ninu Igbo Irunmale” foi escrito originalmente todo em Yorùbá e lançado em 1938. Até hoje faz parte da vanguarda e da densidade clássica impregnada na história da literatura.

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A construção de um universo até então desconhecido. Uma cultura a ser desbravada em uma língua disposta a se perder. Amos Tutuola foi magnífico como autodidata. Sua espontaneidade se conecta com significações que para ele pareciam simples, básicas, elementares, não obstante, para seus ilustres entusiastas, eram como seus heróis. Embebiam em complexas sutilidades, armações quase didáticas, olhares pelas matas avançando a escuridão da floresta ou o encontro inebriante com os campos. O folclore Yoruba visitado e revisitado num surrealismo nativo, porém, universal.

O Palmwine Drinkard foi encenado na Nigéria com grande sucesso na década de sessenta. Nos meados desta década ele lança “The Feather Woman of the Jungle” Tutuola apenas voltaria aos romances na década de oitenta, com The Witch Herbalist of the Remote Town (1980), The Wild Hunter in the Bush of the Ghosts (1982) and Pauper, Brawler, Slanderer (1987). Período este que ganha alguns prêmios nos Estados Unidos e na Itália. Além de contribuir para a divulgação da literatura do país ao lado de universidades e Instituições.

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Tutuola é um patrimônio histórico da cultura nigeriana. Um dos mais fantásticos e celebrados escritores fora da África. Uma lenda dentro das lendas que versou em toda a sua obra. Faleceu aos setenta e sete anos em 1997. Seu último trabalho foi The Village Witch Doctor and Other Stories, lançado em 1990. Onde a simplicidade nativa e elementar - que poderia quebrar sua história como artista e o lançar ao esquecimento – foi subvertida pelo talento improvável para alguns, inevitável para muitos. Amos Tutuola, um dos mestres Yourubás da literatura universal.


João da Rocha

Apenas um homem inadequado.
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