zoom nas vísceras

O olhar sobe como um estranho balão para o infinito

João da Rocha

Apenas um homem inadequado

Valentin Alexandrovich Serov | O RETRATISTA DA ESSÊNCIA

"Serov era um realista, no melhor sentido da palavra. Ele infalivelmente viu a verdade segredo da vida; e as coisas que ele pintou revelou a própria essência dos fenômenos, que outros olhos não podem mesmo ver."

Valery Bryussov


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A academia de Belas Artes russa na lendária cidade de São Petersburgo foi sem dúvida o maior centro cultural do país e um dos maiores do mundo. Fundada sob as bênçãos do poeta Mikhail Lomonosov, em meados do século XVIII, formou alguns dos mais notáveis artistas da época e foi também fundamental para a estruturação de uma identidade russa com as tendências da época.

Já no século XIX, artistas como Ivan Kramskoi ajudaram a construir e/ou disseminar o chamado Realismo Russo. Deste movimento surgem também artistas fantásticos como Iván Shihkin ou Ivan Kramskoy. Neste contexto artístico, mais precisamente em 1865, nasce Valentin Aleksandrovich Serov - filho do grande compositor Alexander Serov e da Pianista Valentina Serov – para se tornar um dos maiores pintores do impressionismo russo.

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Os primeiros passos da vida artística de Valentin Serov foram dados em Paris, depois de sua família ter ficado em Munique. Com a morte do pai, sua mãe o encaminhou para a escola de arte, todavia, este acabou voltando para São Petersburgo depois de seguir os conselhos do mestre Ilya Repin. Este, grande pintor francês do século XIX, também foi uma das grandes referências de Serov durante anos. Sob as recomendações e orientações de Repin, Serov foi rapidamente inserido entre os meios acadêmicos que ficaram admirados com o talento potente do jovem para a construção de retratos.

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Os primeiros traços do retratista ainda eram evidentemente mergulhados no realismo. Bosques, praças, a vida nos arredores de Moscou e o descampado sublime coberto de gelo. Esta fase é considerada de grandes obras e de vitalidade e elegância, algumas estão entre as mais emblemáticas da pintura russa do fim do século 19. Serov havia se inserido na aristocracia da época e trabalhava para o esculpimento de uma identidade própria, além do próprio talento que tinha. Época também que casou com Olga Trubnikova Serov.

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Consolidado seu nome entre os grandes artistas e acadêmicos da época, em meados dos anos oitenta do século XIX, Valentin entra para o grupo do mestre Peredvizhniki. O grupo visava o trabalho de retratar figuras eminentes da época, como duques, damas e grandes personalidades da sociedade russa. Importante enfatizar que isto logo incomodou as artes de Valentin Serov, pela impregnação academicista buscada por Peredvizhniki. Brotava ali, em tons ainda desconhecidos, o envolvimento com uma arte mais autoral, mais profunda, a busca por retratos que não buscassem a perfeição da pincelada em si e sim trouxesse para a imersão o sentimento daqueles retratados.

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Há de ressaltar que o Impressionismo Russo deu suas primeiras exposições nas últimas duas décadas daquele século. Trazendo à tona autores variados com inspirações vastas para um desenvolvimento de um movimento sólido estético e nacionalista. Destacam-se - entre os grandes deste período - artistas como Aleksandra Ekster, David Burliuk, Elena Guro. Esta também notável desenhista, ilustradora e pintora que acabou se expandindo para uma arte mais abstrata tempos depois. O poeta Bóris Dmitryievch também se notabilizou como um dos maiores escritores de uma Rússia Pré-revolucionária e também se mistura aos grupos impressionistas como os ‘Itinerantes’ e o grupo ‘Triângulo’ liderado pelo médico Nicolay Kulbin.

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Toda esta carga de aglomerações artísticas e efervescência - vinda de países como a França - foi fundamental para o rompimento de Valentin Serov com o realismo e seu entusiasmo com o Impressionismo. Em muitos relatos para pessoas próximas, Serov dizia que não pretendia realçar falhas – por mais que alguns críticos da época rechaçassem que o artista buscava as imperfeições, não obstante, o desejo intrínseco era na verdade mostrar suas impressões profundas sobre o retrato. Alguns até o temiam pela vitalidade em expor pequenas verdades estáticas que se atemporalizavam.

Veio à revolução no início do século XX e Serov mergulhou seu espírito em intenso nacionalismo nas problemáticas sociais do país.

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Estas experiências tomaram Valentin de tal forma que este se tornou um artista mais recluso o levando ao rompimento com a Academia de Artes. Estudiosos apontam este período como o auge do gênio de Valentin. Entremeio que pintou com perfeição grandes artistas, revolucionários e figuras emblemáticas contemporâneas. Tempo também que começou a trabalhar com desenhos à lápis e outras ferramentas que o ajudaram a contar a história da Rússia. Além de toda esta construção de um estilo, Valentin Serov também desenvolve peças, estas encenadas em Paris e Londres e esculturas influenciadas por uma visita que fez a Grécia.

Em 22 de novembro de 1911, no esplendor de sua arte, Valentin Alexandrovich Serov sofre uma parada cardíaca e falece aos 46 anos.

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Suas linhas buscavam as características humanas em sua dimensão mais fiel possível, porém sob um ponto de vista de um artista interessado não no realismo puramente concreto da palavra e sim como que buscasse além. Uma busca por nuances que atravessassem às fronteiras do retrato e fossem ao encontro de uma dimensão que só um artista poderia encontrar em sua construção e equilíbrio.

Valentin Serov trouxe uma nova dimensão ao retrato russo. Tornando-se um dos primeiros grandes gênios do século XX e um dos maiores retratistas da história.


João da Rocha

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