zoom nas vísceras

O olhar sobe como um estranho balão para o infinito

João Roc

Apenas um homem inadequado

A ESTÉTICA PROGRAMADA DE Manfred Mohr

"A reelaboração do mundo pelo trabalho humano, o processo da civilização, não constitui apenas um fenômeno exterior, mas também um fenômeno interior, tendo afetado nossa consciência global que dele desfruta e sofre. Esta, por meio de suas possibilidades criativas e imitativas, comunicativas e separadoras, realiza a construção teórica e fática da civilização como uma realidade artificial por nós habitada".

Max Bense | Pequena Estética


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Em 1971, o alemão Manfred Mohr, seria o primeiro artista a ter uma exposição só com obras criadas a partir do computador na cidade de Paris. Mostra esta, considerada pioneira na arte digital no mundo. Não a primeira certamente - três anos antes o próprio artista já havia ganhado uma exposição individual - na galeria Daniel Templon - também na capital francesa.

Entretanto, a “Une esthétique programmée” como foi intitulada abriu diversas portas para outros artistas. Não obstante, não foi também a primeira obra a trabalhar - com o até então - novos desdobramentos que a tecnologia poderia proporcionar em seu desenvolvimento. A década anterior foi profícua na elaboração das bases da arte digital.

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Entre as bases e a influência na produção de Mohr estão nomes como Frieder Nake e Georg Nees. O primeiro, despontou com trabalhos ainda na cidade de Stuttgart no início dos anos 60. Exposições e teorias que seriam posteriormente renegadas na próxima década por ele mesmo por questões mais políticas do que estéticas.

Por outro lado, Georg Nees, nascido em Nürnberg, também elaborou grandes obras baseadas na criação artística computacional. Ganhando importantes exposições pelo mundo. Por outro lado, ninguém foi tão fundamental - para estes - assim como para o mestre Manfred Mohr; como Max Bense e seus conceitos estéticos.

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O alemão Max Bense foi decisivo para a reconstrução da estética de artistas como Mohr, Nees e Nake, além de toda uma geração de artistas que fomentaram a arte digital, do concretismo brasileiro à arte computacional no final da década de sessenta. Formado em física, matemática – para ficar apenas nestes – formou-se na lendária Universidade de Bonn, esta fundada em 1818.

Bense desenvolveu concepções estéticas que traziam - para dentro da criação artística - os princípios matemáticos que as modulavam. Suas publicações tiveram grande impacto sobre vários artistas e mudou a forma de conceber a criação para Manfred Mohr - que de uma arte abstrata - mergulharia suas ideias na engenharia do computador como motor criativo.

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Os primeiros passos de Manfred foram dados como musico de jazz e pintor na cidade de Pforzheim, no estado de Baden-Württemberg, Alemanha no final da década de 30. No entanto, foi em meados dos anos sessenta que o jovem artista se lança em direção aos implementos das teorias estéticas de Besen na prática e formula dezenas de obras criadas a partir de um potente computador do museu de meteorologia de Paris onde trabalhava desde 1970. Também mantinha um estúdio de arte na cidade. Nascia naquele instante as obras que definiriam a composição algorítmica de Mohr baseadas em seus desenhos.

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Já nos anos setenta, Manfred Mohr havia se consolidado como um dos expoentes da arte digital. Houve exposições apaixonadas em Berlim e também no museu de arte moderna em NY. Mohr organizou importantes seminários e escreveu ensaios sobre a arte digital e seu potencial criador. No entanto, durante os primeiros anos, a criação digital era vista como uma espécie de crítica ao ambiente impulsivo e underground criado no final dos anos cinquenta. O estruturalismo e sua lógica eram tratados - por alguns segmentos - como um retrocesso e um golpe do marcado.

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A verdade é que a linguagem digital era uma realidade inevitável e encontrou em artistas pioneiros como Manfred Mohr suas razões filosóficas e criativas. Estudos e/ou publicações de livros como "The digital computer as a creative medium" de 1967 do americano Michael Noll e "Artificiata I" do próprio Mohr em 1969, foram importantes para os fundamentos desta nova arte e experimentos musicais com computador e solidificações conceituais de gente como Pierre Barbaud - assim como os pilares conceituais de Max Bense - estabeleceram as bases sólidas e os caminhos para a primeira vanguarda da arte digital.

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Naquela primeira exposição solo de uma arte completamente digital em Paris, um painel chamou bastante atenção convidando o público a expor sua visão sobra a mostra e para este vim à tona em toda a sua contemporaneidade. A provocação dizia:

“QUÉ PIENSA USTED DE LA INVESTIGACIÓN ESTÉTICA REALIZADA CON LA AYUDA DE UN ORDENADOR?”

Houve grandes críticas e resistência. Manfred Mohr estava na dianteira de uma arte genuína - que não visava e nem visa substituir a criação humana - entretanto, sua pequena estética se tornou uma das mais poderosas ferramentas da arte da história.

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Mohr segue colecionando prêmios e sobretudo admiração por seu pioneirismo e contribuição - não só para os fundamentos estéticos - mas também teóricos da arte. Mostrando que mais que uma arte criada em máquinas - como afirmam alguns detratores - a arte digital vive da contempleção enigmática da estética idealizadora do ser humano.


João Roc

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