zoom nas vísceras

O olhar sobe como um estranho balão para o infinito

João da Rocha

Apenas um homem inadequado

A AUSÊNCIA DIMENSIONAL

Um redemoinho de razões ameaça as pequenas casas de areia da poesia. Um vendaval de sensações abraça a razão pela cintura e geme de confortos múltiplos. Na releitura do tempo, descampados e pântanos parecem ser as avenidas principais. Solares edifícios e gélidos tratores restauram o caminho lúcido. Na volta para a casa, um colo espontâneo reescreve a eternidade todos os dias. Quem na insana montagem das horas esqueceu a si mesmo como peça principal?


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Lulutan estava ensopada de tanto calor no centro da capital. Turvas palavras saltavam dos aparelhos que guiavam os transeuntes e suas impávidas discussões com o tempo. Estava ansiosa para arrumar as malas e seguir viagem com a família para o grande interior verdejante. Sempre tentava nos convencer que a cidade era uma terra sem lei, e nós, sorridentes, fingíamos acreditar que não era verdade. As lembranças da mãe ainda permaneciam em seu colo como uma criança indefesa adormecida. Ela apenas permanecia nestes dias…

Permanecia naquele trabalho aglomerante, cheio de olhares febris, derretendo as percepções do seu próprio sentido, desvendando ali, na copa ou na porta do chefe, os punhais sobrecarregados. Permanecia forte, como aquela que suporta as perdas mais bigorniantes da vida. Finalmente permanecia impenetrável - como uma luz apagada – que entretanto, para nossa sorte, jamais se apaga totalmente.

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Naquele sufoco agonizante - e a vontade múltipla de retornar ao lar de outrora - lhe subia como um vulcão rouco crepuscular. Dona Lulutan há tempos almejava um momento onde pudesse refletir sobre as perdas. Sim, sua mãe, uma alma irreparavelmente doce num mundo tremulamente Dessaborido. As conversas – longas conversas – debaixo das árvores à beira da calçada-cratera. Confissões subcontadas e medos vagarosos pelos flancos no excesso de cuidado maternal. Lu era apenas uma das filhas. Talvez a mais independente da mãe e a mais dependente de seu olhar. Este, um canto colorido parado no meio do caminho de um cansado viajante a fim de afaga-lo.

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Na intermitente espera do ônibus desgovernado. No vagaroso ponteiro irretornável. Naquele rosto que não poderá ser mais tocado fisicamente. As datas que batem à porta como estranhos peregrinos com sede. Lulutan finalmente subiria em sua locomotiva espectral e poria o rosto nos vidros afagantes…

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Quantas liberdades indomáveis retratariam a certeza que corta as verdades mais intrépidas? O vendaval de líquidos obscuros - misto de lágrima e suor - perfura o chão da casa, há tempos, um templo das mais perfeitas realizações humanas. O homem parece trabalhar como um escultor que ao terminar sua obra, sente um vazio impenetrável, percebe então que não se pode mais refazer o caminho. E dentro o labirinto do que foi e assim será, perde-se.

Ela mesma observa-se, ao longe, gemendo de medo e cansaço linear, um silêncio isolado depois das intemporais brincadeiras no quintal mágico. Atravessa os fios de alta tensão e adormece sobre eles. Depois, às mãos-algodões da mãe em banhos estrelares. No centro de tudo, ela, um colapso prestes a romper-se, como uma árvore desabando entre os nós do vento diante da realização translucida.

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– Mãe? – Sim Lu… - Como? – como o que? Já tomou banho? Vamos passear na praça daqui a pouco, vai logo… - Mas, eu voltei a ser criança? A menina espantada em sua própria condição olha-se num espelho revelador e causa risos desdenhadores. – Voltei? Já se sentia adulta menina? Está cedo. – Mãe… Eu te amo! – Também, agora, vai logo tomar banho… - Mãe, não queria te perder? – Já que me matar? (risos) estou nova ainda. – E o papai? – Teu pai? Deve estar andando por aí… - Mãe! – Ah, deixa de coisa. – Não acredito! Sou criança… - Vou mandar orar em ti menina. Disse a mãe rumo à cozinha...

- E minhas filhas?... Diz Lu falando baixinho para si mesma. Terá sido um grande milagre crepuscular? Será uma fenda entre as brechas das portas das horas. Uma ponte invisível por debaixo dos pés dos transeuntes. A realização indescritível de um sonho agonizante? Naquela noite, Lulutan adormeceu entre irmãos, a mãe intransponível e o tempo retornável apenas para ela. Agarrou-se à mãe onde soltar não era uma opção desejada e adormeceu indestrutível...

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Jamais acordou novamente naquela realidade colorida.

Abraçou as filhas, o filho, aqueles de que ama – como se um retorno fosse para o presente. Entretanto, não o mesmo presente. O presente em si. Desembrulhando a manhã e guardando os laços como se guarda às memórias.

Como uma criança que percorreu - em sua minúscula bicicleta - um caminho seguro de ida e volta aos arredores da casa, dissolvendo-se… Tudo não passou de um conto - escrito pelas mãos flutuantes – de mães, avós, pais e irmãos, uma reunião de fabulosas armadilhas apaixonantes que roçam a pele com um carinho visceral. O desconforto do barrento esquecimento agora, um afago.

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Se havia dúvidas, nós em algum momento a abandonamos pelos trilhos de areia. Aceitamos que tudo não passou de um longo texto, onde letras e palavras eram apenas parte de uma minúscula razão. Esta, um cubo abstrato que remodelamos como luzeiros.

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Fotografias |Sebastian Luczywo | Link: https://www.facebook.com/SebastianLuczywoPhotospace


João da Rocha

Apenas um homem inadequado.
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