zoom nas vísceras

O olhar sobe como um estranho balão para o infinito

João da Rocha

Apenas um homem inadequado

A CRÔNICA BÓSNIA DE IVO ANDRIC

Muito antes dos terríveis conflitos na década de 90, a região da Bósnia já travava – dentro de sua própria condição histórica – momentos onde a paz se dava através do sangue, de exércitos, golpes e impérios. A península balcânica ou Bálcãs - apesar de sua exuberante beleza natural - tem em seu passado grandes dilemas políticos e territoriais travados. É neste contexto que nasce um dos maiores escritores do século XX, Ivo Andric.


kul-ivo.jpg

A atual Bósnia-Herzegovina fazia parte dos imperadores Ilírios. Região dominada pelo império romano e remonta à história da antiga Iugoslávia. Ivo Andric nasceu em 1892, na cidade de Travnik. Período este de transição política com o fim do Império Otomano e perturbadores conflitos entre etnias, religiões e interesses políticos.

Com dezesseis anos de idade, Andric viu o império Austro-Húngaro anexar à Bósnia e a Herzegovina e toda a efervescência ideologia do período. Todas estas mudanças conflitantes leva o embrionário escritor a participar de grupos e discussões pragmáticas com diversas frentes e movimentos. Um deles, nos primeiros passos do que viria a se tornar depois o movimento Jovem Bósnia.

85.jpg

O grupo Jovem Bósnia era uma balbúrdia filosófica e um aglomerado de jovens intelectuais declamadores de diferentes tendências. Extremistas, anarquistas, socialistas, arbitrárias ou artísticas que povoam os arredores de uma Sarajevo pulverizante - sob a batuta do grupo extremista - “Mão Negra”. O assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando em 1914 e o envolvimento de integrantes do grupo - em complexas conspirações - desencadearam a primeira grande guerra.

Paralelo a estes momentos desgraçantes para a sociedade da época, Ivo Andric começava os primeiros passos na literatura publicando suas primeiras obras antes do início dos conflitos. Também nestes anos, estudou na Universidade de Zagreb, em Viena, entretanto, só veio a concluir em 1924 devido as conflagrações.

Também em 1914, Andric participa de uma das mais importantes antologias de poetas da Bósnia. ‘Hrvatska mlada lirika’ trouxe importantes jovens nomes da literatura da época como Vladimir Čerina Nikola Polić. O trabalho foi editado pelo escritor e professor Julije Benešić. Com o estouro do primeiro grande conflito e as ações do revolucionário Mlada Bosna, Ivo Andric é preso e passa três anos acusado de atividades ‘anti-austríacas’.

ivo-andric (1).jpg

As primeiras experiências traumáticas e o jogo político da região, a guerra e o homem - fervem na mente de Ivo Andric - que nos anos finais da primeira guerra entrega seus primeiros trabalhos. Ex ponto, foi uma coletânea de poesias. Nemiri em 1920 e no mesmo ano Put Alije Djerzeleda, refletem o confinamento e os traumas da guerra. Problemas com a tuberculose e publicações no jornal Knijzevni marcam o início dos anos vinte para Andric e também uma carreira bem sucedida na diplomacia de Belgrado.

A beleza dos versos em prosa de Ivo Andric já havia começado a se desenvolver em estruturações fabulosas. Períodos rochosos – como os ambientes montanhosos da região. Os turbulentos dilemas da época fomentados em crônicas arquitetônicas e precisas. Os anos trinta foram de serviços diplomáticos e outras representações até o advento nazista e sua reclusão. Longos romances foram impregnados por Andric durante os conflitos. Destas confabulações medonhas nascem o que para alguns estudiosos são os livros definitivos do escritor. Na Drini cuprija (A Ponte sobre o Drina), Travnicka Hronika (História da Bósnia), e Gospodjica (A Mulher de Sarajevo) todos publicados em 1945.

91nZqVfi86L.jpg

‘A Ponte sobre o Drina’ é um dos maiores romances do século XX. Lançado primeiramente em Servo-Croata, traz o trabalho de Andric para o nível de clássico. Temos Visegrad, temos Ali-Hodza, um louco, temos a ponte sendo construída para ligar histórias. Outras histórias, velhas, antepassadas, étnicas, invisíveis. Para muitos o trabalho é o retrato da própria história daquele país ou da humanidade. Ivo Andric tenta construir alguma passagem que ligue nossas desolações intrínsecas e remonta aquilo que nos afasta de nós mesmos e também – quase que, sobretudo – do outro.

O trabalho poderia também ser um mosaico, um painel de um século onde o homem delimitou barreiras quase intransponíveis dentro de si mesmo. Algumas outras novelas, obras primas, como Gospodjica e Nove pripovetke e O Pátio Maldito são bastante celebrados. Ivo envolve-se com questões políticas na Iugoslávia. Trabalha em ensaios e pequenos romances até conquistar o prêmio Nobel de literatura em 1962. Coroando assim sua obra e sua atemporalidade. Faleceu em 1975, em Belgrado deixando várias obras inacabadas que foram postumamente publicadas.

ivo-andric-u-svom-domu-1415465986-50828.jpg

Um dos autores bósnios mais traduzidos da história. Ivo Andric, assim como os grandes escritores, foi do seu tempo e da história. Não se absteve de trabalhar a visão de seu país para seus leitores nativos e sua universalidade na construção de personagens íntimos em seus realismos inexoráveis e crônicas históricas como verdadeiros documentos. Um verdadeiro vulto do século XX. Um patrimônio da cultura Bósnia e da literatura universal. Uma ponte transcendente para a história.


João da Rocha

Apenas um homem inadequado.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //João da Rocha