zoom nas vísceras

O olhar sobe como um estranho balão para o infinito

João da Rocha

Apenas um homem inadequado

A FOTOGRAFIA AVANT-GARDE DE Ilse Bing

Se houve um país - no século XX - onde a fotografia travou um profundo desenvolvimento técnico, estético, poético e não menos filosófico foi a França. Mais precisamente em uma Paris desbravada por luzes vanguardistas elementares, desenvolvimentos conceituais do universo urbano. Uma investigação quase científica da sociedade, do homem, da vida parisiense antes nos meados anteriores à segunda guerra. Claro, em todo aquele século. Gente como Andre Kertesz, Henri Bresson, os surrealistas, o cinema, a arte em si em profusão.


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Ilse Bing nasceu no final do século 19, em Frankfurt, Alemanha. Seus estudos começaram nesta cidade natal com matemática e depois em Viena, estudando artes. Neste contexto, conhece a câmera Leica no início dos anos vinte, fato que determinaria sua vocação que desdobraria naqueles próximos anos e décadas. Ressaltando que Bing aprendeu a fotografar sozinha, explorando bastante este novo experimento.

A máquina Leica nasceu nos estudos do alemão Oskar Barnack. Engenheiro que trabalhava em fábricas de lentes nos meados da segunda década do século XX. Barnack também havia inventado a câmera de 35mm. O desenvolvimento da máquina Leica se deu por vários anos até encontrar forma nos anos 30, obtendo grande sucesso. Graças – entre outros fatores também - a genialidade de Ilse Bing que começara a aparecer em exposições em Paris. Poucos anos antes de Oskar Barnack falecer - precisamente em 1936 - ano também da primeira exposição de fotografia moderna do museu do Louvre; Bing chegou a ser a única fotógrafa profissional de Paris a trabalhar com uma Leitz Câmera.

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Os anos trinta foram profícuos para Bing. Ela começou a trabalhar em uma técnica própria de revelação. Participou de apaixonadas exposições na galeria La Pléiade. Em uma delas - na Salon 26 Internationale d'Art Photographique - foi chamada de a Rainha da Leica. Lembrando que Bing mudou para Paris no início desta década - depois de trabalhar nos projetos de documentação das obras do arquiteto holandês Mart Stam - Este também é considerado um importante elo que levou a fotógrafa aos círculos artísticos de Frankfurt. Mesmo morando na capital francesa, Ilse continuou – por algum tempo – a trabalhar para alguns jornais alemães. Depois, começou a fotografar para eminentes revistas francesas como a Arts et Metiers Graphiques, Le Monde Illustre e L'Illustration.

Ilse Bing construiu uma sólida carreira como fotojornalista e trabalhando com moda também para revistas como Vogue e Marchal. Teve fotografias expostas também no Museu de Arte Moderna de Nova York, cidade onde também participou da cena artística. Fotografou e fez importantes contatos até voltar à Paris para casar com o músico pianista Konrad Wolff.

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Como o advento da segunda guerra, Bing e Wolff são presos. Eram judeus e são mandados para o sul da França, separados. Conseguiram em 1941 viajar para os Estados Unidos graças intensas conexões com a editora Harpers Bazaar. Na América, permaneceram por um tempo. Neste entremeio, Ilse começa a trabalhar com uma Rolleiflex. Ainda sobre a prisão em Paris, Ilse acaba neste processo todo de viagem, prisão e saída às pressas da França, perdendo parte de seu notável material. Mesmo entregando para um amigo, não conseguiu recuperar boa parte das fotografias parisienses.

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A experiência da segunda guerra influenciou toda a arte de Ilse Bing. Não poderia ser para menos, não obstante, em relatos tempos depois, na sua volta a cidade francesa, sentiu um cinzento declínio no ar, nas cores, nas relações. Bem diferente daquela Paris dos anos trinta em efervescência cultural profunda. Por outro lado, Bing seguiu expondo nos anos 40 e em meados dos anos cinquenta - pouco tempo depois de começar a fotografar em cor - resolve desistir de vez da fotografia.

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Bing não abandonou a arte. Mudou seu foco. Começou a escrever, trabalhar com colagens e desenhos. Tempo em que sua genialidade fotográfica ficou reclusa, quase esquecida por uma geração até ser redescoberta em meados dos anos setenta. Ganhando nova exposição no museu de Arte Moderna de Nova York. Ilse publicou alguns livros e ganhou muitos outros que vieram para estudar e eternizar mais ainda suas imagens. A exposição na década de oitenta na sala de Artes de New Orleans é considerada de extrema relevância na consolidação de seu nome definitivamente como figura clássica das artes modernas e da fotografia.

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Ilse Bing voltou poucas vezes à Paris. Ela e o esposo Konrad Wolff permaneceram em NY o resto dos anos. Wolff faleceu em 1989. Bing foi condecorada no National Arts Club em Manhattan no início dos anos noventa. Nesta década escrevia poesias e eventualmente fazeu ilustrações até 1998.

Sua lendária fotografia de 1931, o Autorretrato com a Leica, tirado em Paris, eternizou aquela que para muitos está entre as mais importantes artistas do século XX. Ilse Bing fez parte de um grupo histórico que abraçou a fotografia e elevou esta a outro patamar. Uma verdadeira rainha da poesia fotográfica em sua magistral dimensão.


João da Rocha

Apenas um homem inadequado.
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