zoom nas vísceras

O olhar sobe como um estranho balão para o infinito

João da Rocha

Apenas um homem inadequado

Jeronymo Monteiro | A VANGUARDA DA FICÇÃO CIENTÍFICA BRASILEIRA

O termo ficção científica surgiu pela primeira vez na revista Amazing Stories nas ideias do editor e também escritor americano visionário Hugo Gernsback. Isto em meados dos anos vinte. Não obstante, os primeiros passos se deram na Europa em franca expansão industrial, precisamente na Inglaterra, também na França. Este representado por Julio Verne e aquele por H.G. Wells no século dezenove. Além dos trabalhos Mary Shelley. No Brasil, ganharia estrutura e bases sólidas na obra de Jeronymo Monteiro, no século XX.


18042010496.jpg

No Brasil alguns passos seriam enveredados por escritores como Machado de Assis - por exemplo - e seu trabalho “O Imortal” em 1882. Ainda neste século, o romance ‘O Doutor Benignus’ do português radicado no Brasil, Emílio Zaluar, também fomentaria a gênese de um gênero que marcaria o século posterior. Até meados dos anos trinta, vários romances de autores brasileiros giravam em torno de algo ainda invisível, que não tinha forma, corpo, no entanto, dialogava com as vanguardas literárias ainda ocultas para a época. Neste contexto, o paulistano Jeronymo Barbosa Monteiro surge como força capaz de sintetizar o gênero rumo à sua universalidade e relevância como obra.

Jeronymo Monteiro nasceu em 1908, São Paulo, Brás. Suas origens remontam à tempos delicados da infância, pobreza e rompimento com a escola. Fatos que marcam o início de um rumo bem à parte para uma carreira literária. Entretanto, aquele elementar caminho sofreria uma alteração com a descoberta da literatura de H. G. Wells.

Obrigado a trabalhar para ajudar a família desde cedo, o pouco que guardava servia para comprar livros. A relação difícil com o pai e o fascínio pela leitura, estórias e escrita; lança o autor como escritor em profunda catarse que culminaria com seu primeiro romance ‘Colecionador de Mãos’ lançado em 1933 e considerado o primeiro romance policial do Brasil e o primeiro personagem detetive tupiniquim. O trabalho foi publicado com o pseudônimo Ronnie Wells.

cidadeperdida3.jpg

Há de ressaltar que Jeronymo Monteiro já havia publicado com frequência, contos e outros textos em jornais importantes como O Cruzeiro e o Diário de São Paulo. Também iniciou uma carreira no jornalismo no Correio Paulistano, redator e radialista. Além do primeiro romance policial brasileiro. Jeronymo Monteiro também é apontado como um dos precursores do rádio teatro brasileiro. Além de tradutor. Ofício que aprendeu sozinho para poder ler seus autores favoritos em suas próprias línguas. Uma carreira bem sucedida também na literatura infantil. Em 1950, Victor Civita fundaria uma das mais importantes editores brasileiras, a Abril. Tendo em Jeronymo Monteiro o seu primeiro editor e responsável pelo lançamento de O Pato Donald.

Em 1970, um rápido e importantíssimo passo para consolidar a ficção científica brasileira com o lançamento do Magazine de Ficção Científica. Uma publicação da O Globo que teve em Jeronymo Monteiro o diretor responsável. Foram apenas vinte números e é hoje uma verdadeira relíquia nos porões dos fãs de Sci-Fi brasileiros. Cabe ressaltar que a revista era um braço da Fantasy & Science Fiction dos Estados Unidos. Alguns anos antes, precisamente em 1964, Monteiro seria um dos fundadores da Associação Brasileira de Ficção Científica.

vo jero016.jpg

Além de clássicas publicações infantis e no campo da literatura policial. Foi na ficção que Jeronymo Monteiro tirou o Brasil do anonimato neste gênero e o colocou na rota dos amantes desta literatura. Alguns dos seus romances estão entre os mais relevantes da literatura do Brasil. Como ‘A Cidade Perdida’ lendária publicação de 1948. Obra esta inspirada em ‘The Lost World’ do Sir Arthur Conan Doyle lançada em 1912. Cidade Perdida serviu até de base arqueológica para pesquisadores como Renato Castelo Branco.

Outro clássico romance de Ficção do mestre Monteiro foi Três meses no século 81 lançado em 1947 pela Globo Editora. Desta vez a inspiração foi o lendário H.G. Wells e sua Máquina do Tempo. Um detalhe curioso, o próprio Wells é um dos personagens do livro. Com tons metafísicos e futurísticos, este trabalho é um dos maiores romances de ficção de todos os tempos.

jeronymo_monteiro_3_meses_no_s_culo_81.jpg

Na década de sessenta Jeronymo lançou outras obras de extrema importância para o gênero de ficção brasileiro como ‘Fuga para parte alguma’ que marcou também sua participação na primeira antologia brasileira de Ficção Científica. Autores como o pernambucano Fausto Cunha e seu “Noites Marcianas” e a carioca Lúcia Benedetti, autora de “O espelho que se vê por dentro’ também faziam parte. O romance quase ufológico ‘Os Visitantes do Espaço’ de 1963 e ‘O elo perdido’ lançado em 1965, tratam de elucubrações fantásticas, kafkanianas por vezes, anômalas, surreais.

JM.JPG

Com o advento da ditadura brasileira em 1964 - e as mudanças democráticas e o colapso democrático para seu país - inspira Jeronymo Monteiro a lançar sua última obra prima. O romance Tangentes da realidade foi publicado em 1969. O Trabalho versa sobre a crise, as relações com o estado, sua própria prisão e o desejo intrínseco de voltar ao passado. Provavelmente anterior ao momento que vivia o país. Uma viagem no tempo lúdica, nostálgica, sutil, poética. Apenas um ano antes do seu falecimento, em 1970.

vo jero023.jpg

Por vezes de tons obscuros. Abstrações assustadoras e desoladores. A Obra de Jeronymo Monteiro é de um otimismo lírico. Cristalino, no entanto, sem ser ingênuo. As realizações humanas em atos não destrutivos e sim de possibilidades mágicas, ímpares. Apontado por estudiosos como o pai da ficção científica brasileira, na verdade, Monteiro levou o gênero para um patamar até então impensado. Colocando esta literatura em sua própria órbita, colocando-a em algum lugar além da anterior marginalidade.

A obra deste autodidata brasileiro - figura importante da cultura e das artes do país - é ainda um absurdo anonimato para as novas gerações. Talvez esta seja até a própria condição da ficção científica brasileira - um subgênero para alguns - entretanto, um universo paralelo a ser explorado e que tem em Jeronymo Monteiro um artefato atemporal a ser redescoberto.


João da Rocha

Apenas um homem inadequado.
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/literatura// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //João da Rocha