zoom nas vísceras

O olhar sobe como um estranho balão para o infinito

João da Rocha

Apenas um homem inadequado

O OBSERVADOR INESPERADO

Naquela tarde – entre um café que gerava nuvens brumosas pela sala e se chocava com frívolos ventos de chuvas vindos dos descampados – o menino Hilde ouviu falar do tal telescópio Hubble.


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Ouviu que este poderia observar “qualquer coisa no espaço e até aqui na Terra”. Hilde teve contato com estas histórias do Senhor Osmar. Homem que vinha na casa de tempos em tempos apenas para saborear a doce cafeína da dona Glicéria. Mãe de Hilde. “Ele pode me ver?” perguntou o pequeno, causando espanto em Osmar pelo atômico interesse do menino. “Sim, creio que sim…” Respondeu aquele senhor com ar sábio – era daqueles que se erguia de alguma poltrona – inclinava-se para fora de sua órbita peitoral – para se sentir um pouco mais elevado – e suspirava. “Poxa legal” Afirma Hilde, correndo para o lado de fora da casinha. Dessas que ficam escondidas em áreas entre bosques, sem muros, sem sons alucinantes, sem carros e sem pressa.

Primeiro Hilde começou a dançar. Algo próximo de algum ritual desordenado. Depois elevou as mãos para o alto em intermináveis adeuses. Depois apenas ficou observando o céu com olhos cheios de partículas coloridas por dentro. Por fim tentou soprar para longe uma nuvem de chuva que eclipsara o sol. Pulmões destemidos – como um herói mitológico tupiniquim – Pensou em montar nessas nuvens escuras e no derradeiro dissipamento delas… Saltar! Um saltar mágico…

Entretanto, Hilde se pôs a esperar. Horas na esperança da passagem da chuva. Sentou, ficou triste, sabia que o telescópio não poderia penetrar nessas densas paredes de água e observa-lo…

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Na manhã seguinte – em um noticiário qualquer – Hilde, que brincava perto, ouviu que o telescópio Hubble havia descoberto uma nova estrela. Ao ouvir a palavra “Hubble” Hilde olhou rápido, assustado, intacto – com pequenas peças de madeira nas mãos simulando brinquedos – Indomável, o menino buscou alguém com o olhar. Ninguém ao redor para confirmar o que havia ouvido. Então correu para alcançar a mãe para esta lhe explicar sobre o universo, a vida, o sonho e as observações desconhecidas. O mundo estava sendo escavado com pequenas forças do destino. O menino estava surpreso demais com o nome da nova estrela.

O nome da estrela? “Hilde”. Sim, uma estrela chamada Hilde. Pasmem!

– Mãeeeeeeeeeee!!!!!! Ele me viuuuuuuu.

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Fotografia | Sebastian Kisworo (Indonésia)


João da Rocha

Apenas um homem inadequado.
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