zoom nas vísceras

O olhar sobe como um estranho balão para o infinito

João da Rocha

Apenas um homem inadequado

A SOLITÁRIA DISTORÇÃO

Naquela manhã, recomeçava uma trágica distorção no tempo da professora Sílvia Granados.


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A agressão que sofreu da adolescente, na presença pálida de todos os colegas; sob os gritos e vaias, não causou apenas um estranho ruído nos tímpanos e uma humilhação. A fez desmaiar na mais completa escuridão. Granados era a mais nova tutora daquela histórica Instituição. Porém estava ainda se adaptando aos zunidos dos garotos e os celulares das moças. Um dia antes, havia proibido ambas às condutas. Naquele mês em especial, Sílvia estava vivendo um profundo estresse medonho nos meandros de um relacionamento. Morar na nova cidade também era motivo para uma paciente adaptação. Entretanto, nada foi mais impactante do que a mão grossa e intimidadora da aluna de rosto ainda desconhecido. Como se não bastasse, algo ainda iria espantar mais a professora: A repetição do ato indefinidamente.

Todos os dias pela manhã Sílvia Granados repetia o mesmo passo. O mesmo ato de ir à padaria, o mesmo bom dia, a mesma roupa, a mesma leitura daquele romance do Flaubert; sempre no capítulo XI. Celular descendo o interior da bolsa e a mesma locomotiva rumo ao centro da grande capital. Não obstante, o que sufocava Granados era a incapacidade quase inverossímil de evitar esse destino. – Como farei para mudar? Dizia olhando pela janela de vidro no inevitável engarrafamento. Algumas vezes chorava copiosamente em alguma poltrona solitária no fundo do ônibus quase vazio. Granados não teria como explicar. Já havia - infinitas vezes - tentado mudar de rota, subir arbitrariamente em um ônibus qualquer ou permanecer na cama, em um ato de ingênua intrepidez. Porém, se por alguma razão a rotina fosse alterada, tudo escurecia e no momento seguinte, ela já se via de frente ao quadro branco da sala 088 e logo em seguida...

-Professora?

Granados ouve e vira-se. A mão gelada encontra o rosto branco da docente. Mão que pesava toneladas. Pensou. Logo em seguida, o obscurecimento. O eclipse desgraçado de seus sentidos.

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Absolutamente esgotada por esta anomalia temporal, a pobre Sílvia Granados - em uma manhã - resolveu num ato de insanidade urbana, jogar-se à frente de um carro na avenida intrafegável. Sem sucesso. Obteve apenas algumas escoriações. – Não foi nada. Disse aos curiosos.

No entanto, era a primeira vez em tempos que algo diferente acontecia em sua existência. Parada ali e rodeada pelos jovens transeuntes, a professora de vagar, deitou-se: “A manhã vista sob a ótica do asfalto. Pés, rodas, emaranhados de destinos se cruzando. Uma estranha sensação de prazer urbano visceral. O chão como cama de caminhos desconstruídos pelo destino. Finalmente o alívio frente à praga, frente ao medonho e obscuro percurso. Estou cansada...” A ambulância já dobrava a esquina ao longe.

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Depois, levada pelo veloz carro rumo ao hospital, vendo os edifícios que se amontoavam em segundos pela janela, ela decidiu: Deixaria de ser a professora Sílvia Granados. Seria a mulher anônima vítima do louco trânsito matinal. A intermitente solitária urbana que sofria de algum distúrbio do tempo, que, no entanto, estava de volta à normalidade. Desfaleceu, rindo de si mesma.

Na manhã seguinte...

– Professora?

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Fotografias | Elliott Erwitt (FRA)


João da Rocha

Apenas um homem inadequado.
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