zoom nas vísceras

O olhar sobe como um estranho balão para o infinito

João da Rocha

Apenas um homem inadequado

SUN RA | O JAZZ VINDO DE SATURNO

Para alguns o jazz – assim como a música clássica – representa um grau de excelência artística que evidencia os caminhos irreversíveis que o homem alcançou na arte. O gênero que mais se metamorfoseia - como a própria condição humana - encontrou ao longo dos mais de cem anos, diversas faces e seres revolucionários que – ao contrário de outros gêneros – não delimitaram os limites matemáticos da criação e sim o esticaram rumo ao que os poetas chamam de infinito.


tumblr_niyvdmvg051rhs603o1_1280.jpg

Quando Sun Ra iniciou sua jornada por esse planeta, o jazz ainda vivia a ressaca de uma dos mais poderosos estilos já criados, o Bee bop. Sob a batuta do gênio Charlie "Bird" Parker e do mestre Dizzy Gillespie, o estilo - nascido em meados dos anos quarenta - trouxe inovações que expandiram os leques de possibilidades sonoras, irreversivelmente, culminando depois com o universo libertário do Free Jazz de Ornette Coleman e seu obrigatório The Shape Of Jazz To Come (1959). Sun Ra seria peça fundamental em uma engrenagem de difícil condução, entre ouvidos se desarticulando em interplanetárias harmonias e suor escorrendo pelas mangas da alma.

Para iniciar o processo de reconhecimento, primeiro, temos que apresentar esse estrangeiro mundano. Sun Ra era, na verdade, Herman Blount, nascido no Alabama, em 1914. Estudou música na cidade natal, anos depois passou por Chicago onde formou banda e criou a própria gravadora na Filadélfia, no início da década de sessenta. A criação do próprio selo foi necessária para deixar o terreno livre para o que viria a ser uma das discografias mais alienígenas do jazz. Ressaltando que o nome Sun Ra faz referência ao deus-sol do Egito.

Sun-Ra.jpg

As construções dos elementos dissonantes de Sun Ra passam pela música africana e pelo simbolismo rico e enigmático da cultura egípcia. A cultura daquele país podia ser visível na própria vestimenta de Herman Blount, na busca pelo exótico, místico, metafísico. Sabe-se que Herman devorava literatura, coisas que poderiam ser encontradas em coletâneas como The Egyptian Book of The Dead, entre outros. Mais ou menos nessa época, Sun Ra revelou sua verdadeira identidade. Afirmava ser um cidadão de Saturno. O primeiro extraterrestre declarado do Jazz e - a julgar por seus discos - poucos ousavam duvidar.

Entre as influências mais notáveis na construção de uma identidade desarmônica, mas nem por isso irresponsável, foi a de Duke Ellington, um mestre de um dos estilos que dominaram a década de 30, o Swing. Outro mestre a exercer grande recepção no universo de Sun Ra foi Thelonious Monk, um dos maiores pianistas de todos os tempos. Curiosamente, dois grandes gênios paralelos ao mundo free jazz idealizado por Blount.

de-0701-719460-552916-front.jpg

Mergulha em Sun Ra é se permitir se imaginar em um universo sci-fi cósmico onde as leis da física servem apenas como paisagem. Monólogos interiores em línguas nativas de outras galáxias ou contratempos vocais irracionais em tons fantásticos. Cada álbum parece ser um estudo ou uma carta de apresentação de um turista de outra dimensão (o próprio Sun Ra dizia que o era) e que veio para mostrar que paradigmas humanos devem ser quebrados com paciência e singularidade. Supersonic Jazz/ Supersonic Sound lançado em 1956 já trazia essa intrínseca intenção crucial. Passando pelas improvisações lúgubres de The Heliocentric Worlds of Sun e suas percussões egípicias-saturnicas. Ou o caótico monólito de Space is the Place lançado em 1972 e que viraria filme dois anos depois na mão de John Coney e protagonizado pelo próprio Sun Ra. Outros filmes e documentários foram trabalhados na década de noventa e os anos 2000. Todos tentando entender as controvérsias filosóficas e os caminhos à margem do facilitismo traçados pelo bandleade.

SUNRA1.jpg

Sun Ra também foi um dos maiores expoentes do Afrofuturismo. O movimento buscava nas raízes espirituais, nos rituais afros, a harmonia dos sentidos. Os ritmos, a música, a arte africana como plataforma para uma ascestralidade profunda, densa em sua jornada, especulativa, fantasiosa, antigravitacional. Sun Ra de fato não teve a intenção de ser Afrofuturista ou qualquer rótulo em questão, apenas o foi como agregador de toda a significância que compôs suas próprias referências. Foi nos ensaios e livros de Mark Dery - já em meados dos anos noventa - que o termo ganhou força e seus rastros levaram à arte ímpar de Sun Ra.

img001.jpg

Há de ressaltar, a discografia do mestre é extensa. Boa parte passou por sua própria gravadora, a El Saturn Records. Também servem de farol para outras dimensões os discos e/ou petardos musicais como: Cosmic Tones For Mental Therapy, Other Planes of There, Jazz in a Silhouette. Dezenas de experimentações, explorações nos primórdios da música eletrônica, antes de gente como Kraftwerk e na cola de pioneiros como Karlheinz Stockhausen.

Sun Ra seguiu compondo peças cerebrais nos anos oitenta. Dizia que veio de saturno e levou consigo, em 1993, a certeza, ou não, desta verdade. Deve estar com os deuses egípcios os ensinando a improvisar e a criar harmonias improváveis. Poucos arriscaram tanto no jazz, colocando esse no limiar - para mostrar -que o próprio jamais encontra limites, nem aqui, nem em outras galáxias. A Myth-Science Solar Arkestra continua até hoje realizando concertos e ventilando a arte do mestre às novas gerações.

rc2013037_530.jpg

Ao mergulhar os sentidos no sulco extraterrestre na música de Sun Ra, reconhecemos que sua missão - de fato - foi concretizada: Não existem fronteiras. Qualquer horizonte pode ser adentrado.


João da Rocha

Apenas um homem inadequado.
Saiba como escrever na obvious.
version 4/s/musica// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //João da Rocha