zoom nas vísceras

O olhar sobe como um estranho balão para o infinito

João da Rocha

Apenas um homem inadequado

James Ward Byrkit | Coherence

"Acordou uma hora depois. Não sonhara, nenhum horrível pesadelo lhe havia desordenado o cérebro, não esbracejou a defender-se do monstro gelatinoso que se lhe viera pegar à cara, abriu apenas os olhos e pensou, Há alguém em casa. Devagar,sem precipitação, sentou-se na cama e pôs-se à escuta. O quarto é interior, mesmo durante o dia não chegam aqui os rumores de fora, e a esta altura da noite, Que horas serão, o silêncio costuma ser total. E era total. Quem quer que fosse o intruso, não se movia de onde estava."

O HOMEM DUPLICADO
José Saramago


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Paradoxos temporais são comuns na ficção científica. Viajantes do tempo, máquinas capazes de levar estranhos homens ao futuro ou reviver os meandros do passado - e até - alterá-los. Contudo, James Ward Byrkit trabalha com a nossa percepção sem precisar de engrenagens, cálculos infindáveis ou carros mirabolantes. Para esse paradoxo fílmico, Byrkit trabalhou com a mecânica quântica.

Resumir a física quântico é uma tarefa inglória. Partindo dos primeiros experimentos de Max Planck – ainda no século 19, passando pelos artigos publicados por Einstein no início do século passado. Sintetizando bem, a física quântica veio para responder questões em escala atômica e/ou subatômica, algo em grandezas impossíveis de serem observadas a olho nu e que não conseguem ser explicadas pela física clássica.

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Voltando ao filme de James Ward, o que o diretor trabalhou pode ter sido inspirado em uma das teorias mais “enigmáticas” com relação à FQ: O emaranhamento quântico. Nessa, partículas separadas por quilômetros de distância – em linhas gerais – ainda estabelecem comunicação que em alguns casos – acredita-se – é maior que a velocidade da luz. Posto isso, o que temos em Coherence (2013) é um verdadeiro estudo sobre o comportamento humano e ao mesmo tempo um lapso temporal – próxima do Paradoxo da Duplicação Cumulativa. Onde, viajantes do tempo ao adentrarem a própria distorção de si mesmos – no tempo e espaço – percebem o efeito que é ver "nasceram" suas duplicatas. Nesse caso, a construção narrativa conduz nossas certezas a campos desconhecidos. O baixo orçamento da obra também garante uma verossimilhança magnífica que apenas joga com nossa imaginação e observação. O efeito de uma anomalia temporal na realidade plausível das relações humanas.

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Byrkit deixa pistas por onde passa sua câmera. Amigos reunidos para um jantar. Diferenças visíveis que se perpetuaram ao longo dos anos entre eles - talvez - pela distância. Relacionamentos obscuros nas entrelinhas; desejos encobertos e uma falsa harmonia que permeia os acontecimentos. No meio da realidade, um cometa atravessa a noite e deixa o ambiente com um ar intrigante, sedutor. Aos poucos, o entrelaçamento vai surgindo como uma infiltração que ameaça subir pelas paredes e afogar os desavisados. Uma sensação de suspense. A cor por vezes soturna, por vezes de um tom quase natural, faz a ponte entre as incoerências humanas e a coerência com as leis da física.

Ao contrário do que possa vim a parecer. Coherence é mais do que um filme-quebra-cabeça sem uma conexão com a realidade ou sem qualquer identidade pessoal. Pelo contrário, a condução do trabalho - leva-nos -ao desespero, as inquietações e labirintos de cada personagem. James Ward Byrkit aprofunda os estudos de Shane Carruth e seu ‘Primer’ e nos arremessa por dentro das perturbações dos protagonistas - que no fundo - não passam de duplicatas de nossas próprias incertezas e/ou armadilhas pessoais.

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Uma das grandes influências do diretor foi a série The Twilight Zone. Byrkit também trabalhou como ilustrador para o filme ‘Pirates Of The Caribbean’ e também em filmes de animação e comerciais. ‘Coherence’ foi o primeiro trabalho independente do diretor. James Ward Filmou boa parte usando sua própria casa. Outro detalhe interessante - é que os atores não se conheciam - até as filmagens e foram testados e jogados com um roteiro apenas baseados em pistas.

O resultado é um objeto de culto para alguns e um petardo que alimenta nossa inconsciência e a exteriorização das escolhas e respostas intrínsecas e - às vezes - inconfessáveis que temos de nós mesmos e do outro. Em Coherence, James Ward Byrkit esculpiu um Sci-fi com as raízes básicas do cinema: o diálogo, a cena, a história, por si só, formidável. Os efeitos estão em nossas cabeças. Sobretudo no imaginário oculto e na reverberação dos sentidos.


João da Rocha

Apenas um homem inadequado.
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