zoom nas vísceras

O olhar sobe como um estranho balão para o infinito

João da Rocha

Apenas um homem inadequado

OS PERMANENTES

O dia parecia promissor. Sem trânsitos em câmera lenta a colocar nossa paciência no asfalto e arrastá-la sem piedade. Na repartição, havia o habitual entorpecimento. Como um labirinto, cuja saída está exposta, visível, penetrável, não obstante, uma dose de indolência muito maior parece injetada no espírito; transbordando até o pescoço e sufocando-o, porém causando; na carne, apenas indiferença.


BillPerlmutter194302729467.jpg

“Bom dia?" Só se for pra vocês! Disse Marçal, o chefe do departamento de Recursos Humanos. Abruptamente abrindo a porta da sala e entrando com a pressa matinal de quem só poderia estar devidamente atrasado para algum compromisso. A moça de vestido azul e saltos maiores que o arranha-céu na esquina, levou um susto. “Que deselegância”. Pensou em suas rebobinações íntimas. Os rapazes que acessavam as redes sociais riram em tom encabulado. O rosto de Marçal ainda era uma incógnita. Diria aquilo por alguma cólera urbana indefinível? Ou era uma piada para animar aquela pálida segunda feira? Deixou a mochila sobre a mesa e foi procurar – como já era de praxe – um café. Sem dizer mais nada e com olhos que pareciam guerrear entre si uma batalha oculta. Quando voltou era outro homem. Seu mau humor diluía-se na cafeína. Quanto mais forte e mais quente mais ele parecia tomado de prazer. A nossa esperança que o vulcânico café turvasse suas angústias, o alegrasse novamente e voltasse a mostrar seus dentes carcomidos pelo tempo, concretizou-se.

Marçal parecia odiar a repartição. Observava de longe as conversas mal resolvidas no corredor, as tapinhas nas costas daqueles que se desprezavam, as mulheres ornamentadas, o porteiro e suas piadas futebolísticas, o trânsito estrangulado na volta para casa. No departamento: Os orçamentos desprovidos de graça, os processos indesejáveis que se amontoavam como longas colunas pendentes. Aquele café era como um escape, um portal sem gravidade, uma ilha sem azulejos e ar-condicionado. No entanto, alguns cochichos no corredor diziam: Era uma forma de suportar a sua própria decisão de existir.

19.jpg

Não se sabia na verdade o que nos motivava. Sobre Marçal, sabia-se que era solitário. Morava sozinho, não tinha grandes laços familiares e de amizade. Sua competência profissional, por outro lado, era famosa. Os embates argumentativos, a eloquência com as palavras, os belos e persuasivos discursos nas reuniões do departamento. Seu humor atravessava os extremos. No departamento de arquivos, ele e os novos funcionários por pouco não saíram às tapas. Também houve troca de acusações jurídicas com os jovens advogados sedentos para ganhar nem que fosse uma ínfima causa. Certo dia, Marçal parou o trânsito para ajudar uma senhorinha que se acidentara. Gritou e vice-versa com motoristas e chamou uma mulher de prostituta. Quem conheceu o senhor Marçal, tinha certeza, ele e a humanidade eram incompatíveis.

Tempos depois, por conta de um café com gosto desprezível, Marçal deu fim a sua trajetória na repartição. Para alegria de alguns e desgraça de outros. Sem seu talento, os departamentos desandaram. Os recursos financeiros tornaram-se escassos, deficitários. O lugar tornou-se empoeirado, onde o café gélido anunciava certa dose de decadência. Entretanto, nos mantínhamos ali, na conformação mágica do abandono. Serenos como se aquilo fosse o último refúgio para uma vida de vil permanência. Enquanto estivéssemos no mundo, nos bastava. Enquanto houvesse forças, a gravidade não nos desencorajaria. Pensávamos todos.

8f7015d4591688a8d9caadf54a0462fd.jpg

Em uma sexta feira onde a palidez das nuvens parecia nosso reflexo e nossas despedidas na porta do departamento de contabilidade, parecia que iríamos nos diluir entre as rachaduras no asfalto. Encontrei o antigo chefe, por acaso, no centro da cidade. Vê-lo, solitário em uma leitura na pequena livraria e depois falando alto e comprando – pelo que notei - Fernando Pessoa e Nabokov, foi um leve alento.

Pensei em cumprimenta-lo. A julgar que parecia tranquilo e bem humorado. Aparentava certa debilidade ao andar e jogava um ingênuo charme a jovens estudantes enquanto era puxado pelo braço por uma senhorinha. Uma pequena distração e o perdi de vista, encontrando, o vi dobrando a esquina.

Lembrei que naquele dia na repartição, quando terminou o café, Marçal contou piadas, riu de outras, calmo, irônico. Havia uma necessidade natural em ser torpe. E nós, órfãos de um túnel que nos ligava a algum estado de vida além do esperado, mas que, no entanto, parecia vedado, apenas esperávamos que alguma estação trouxesse de volta as lembranças que vinham de doces incertezas matinais.

---

Fotografias | Bill Perlmutter


João da Rocha

Apenas um homem inadequado.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp //João da Rocha